Eu me olhei no espelho e vi o barulho do mar. Igualzinho ao da concha da infância.
A concha era a tua herança. Ela ocupava a parte privilegiada da sala: a estante que o vô trouxe de Palmital. No dia da faxina o pano delicado a lustrava com o mesmo apreço que se faz com uma relíquia.
Ás vezes pra sentir a tua presença eu subia na cadeira da sala e colocava o ouvido bem pertinho da concha e escutava a alegria. Fazia às escondidas, sozinha.
Um dia o ritual foi quebrado no desajeito. A vó exigiu que eu não afundasse mais a palha da cadeira e no rompante da decida despedacei a concha. O mar caiu no carpete.



