Arquivo da categoria ‘oficina’

O ruído

dezembro 10, 2009

Eu me olhei no espelho e vi o barulho do mar.  Igualzinho ao da concha da  infância.

A concha era a tua herança. Ela  ocupava a parte privilegiada da sala: a estante que  o  vô  trouxe  de Palmital.  No dia da faxina  o pano  delicado a lustrava com o mesmo apreço que se faz com uma relíquia.

Ás vezes pra sentir a tua presença eu subia na cadeira da sala e colocava o ouvido bem pertinho da concha e escutava  a alegria.  Fazia às escondidas, sozinha.

Um dia o  ritual foi quebrado no desajeito.  A vó exigiu que eu não afundasse mais a palha da cadeira e no rompante da decida despedacei a concha.  O mar caiu no carpete.

O sítio

novembro 1, 2009

Eu me lembro do rio. Ele passava bem aqui. Bem no lugar onde construíram a porteira verde. Ele era a nossa companhia de fim de tarde.

O pai saia para fazer entregas de cidade em cidade. A mãe cuidava das meninas pequenas. Zenaide e eu cruzávamos dez risos e lá estava o rio: cortado pela madeira do trapiche. Não havia vergonha do passo. Não havia obrigação da venda. Só havia alegria, marronzinha como o amigo.

Depois do banho, o alambique de cobre era o pique. O espaço, o esconde-esconde. O tempo inexistia no caminho. O fim era o cheiro da janta.

Antes de dormir, pela janela o rio nos espiava. Parecia triste, sua cor fazia-se escura, dura. Anunciava a despedida certa. Logo seria a venda do sítio e a mudança. No novo lar, não existiam tardes nem brincadeiras, apenas trabalho. O dia inteiro de balcão, contando comércio e salgando tainha.

O rio foi a nossa infância.