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23 de novembro de 1979

Trabalhar em barco foi uma das piores coisas que já fiz. Todo dia era aquela solidão esticada. De noite, diante do mar, não havia nada além da escuridão.
Pouco se conversa nesses momentos. A audição deve ser o principal sentido, pois o invisível prega peças e o mar braveia a qualquer hora.
Quantas madrugadas de mar revolto. Afoito. Passei a odiar meu antigo companheiro. Justo ele, que sempre foi meu confidente, minha memória e meu pensamento. Embarcado, era meu inimigo.
Não havia mulheres e músicas compactuando cigarros e beijos. Não havia trapiche. Havia apenas outros inseguros homens à espera do porto: nossa mais ansiosa promessa. Em terra firme teríamos o amor rápido e a pesagem do camarão.


*Trecho de Retratos da Garoupa, livro ainda inédito

Pedaços

“Aqui, o feijão se come com mão. A língua salteia não só pros segredos, mas pra qualquer pensamento”.

Pros amigos queridos. Os tequileros e poetas.

Foto no Flickr

Menino

Península

Eu fiz o caminho reverso.

A Enseada ficou à esquerda.

Caminhei pro oeste do Capricornio e vi o Atlântico da outra Península, quase no Índico, e muitas Marimbas. A última Marimba, eu tinha visto na República e com congada.

Aqui, a Marimba fica no sudoeste e ela foi presente da Deusa da Alegria.

O cheiro da Península é como o da minha Garoupa. O mar é frio e tem menino brincando.

Uma vez um amigo do movimento negro desenhou o mapa da África na mão, falou de Bantu. Moleque, Cabaço e Marimba.

Foi na época que na luz eu só desenhava meninas. Foi antes da Garoupa, da Damara e da Marimba.

Talvez a leveza possa ser masculina.

“(…)
The day-moon lights up like a sorry mother,
And the crickets come creeping into our hair
To fiddle the short night away"

Trecho Sylvia Plath – Sleep In The Mojave Desert . Poema inteiro

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